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Coletânea de práticas 2016
Convite à leitura

Na terceira edição do projeto “Portas abertas para a inclusão — Educação física inclusiva”, trazemos uma nova Coletânea de práticas inclusivas, publicação que faz parte do conjunto de materiais desenvolvidos para disseminar o conhecimento gerado ao longo do ano de 2016.

Apresentamos inicialmente a metodologia do Instituto Rodrigo Mendes que fundamenta este projeto, elaborada a partir dos princípios e das dimensões de análise da educação inclusiva, que permitem trabalhar de maneira transformadora as práticas do dia a dia escolar. Trazemos ainda as bases do conceito de educação física inclusiva, modalidade que dialoga com questões de direitos humanos e rompe com o foco no esporte competitivo.

Além da teoria, destacamos como cerne desse material as estratégias e atividades criadas e implementadas pelos cursistas do “Portas abertas” em 12 experiências, selecionadas por suas características de inovação, replicabilidade, atendimento aos princípios da educação inclusiva e participação do público-alvo da educação especial. Sistematizamos as informações geradas pelos projetos elaborados em 119 instituições espalhadas por 15 estados brasileiros e buscamos apresentá-las por meio de um texto de leitura agradável, acompanhado de uma síntese da prática que traz etapas importantes das atividades descritas.

Esperamos que o material inspire reflexões e ações que extrapolem os padrões rígidos ainda existentes nas estruturas escolares.

Reforçamos que não se trata de receitas prontas ou um passo a passo para ser copiado. O que temos aqui são elementos considerados fundamentais para a reflexão e que se tornam fonte de pesquisa e orientação para o desenvolvimento de práticas similares ou inovadoras. O caráter de replicabilidade deve sempre respeitar as particularidades de cada contexto educacional.

Todo conhecimento gerado por projetos como o “Portas abertas”, além de pesquisas realizadas no Brasil e no exterior pelo IRM, é organizado e disponibilizado no portal DIVERSA diversa.org.br, permitindo que as discussões possam ser objeto de reflexão e de referência para os interessados em construir uma educação inclusiva na prática.

Parceiro nesse projeto desde 2012, o UNICEF desenvolve com governos e sociedade ações inovadoras e de impacto em áreas onde os desafios para a realização do direito à educação de crianças e adolescentes são mais críticos e persistentes, como em comunidades populares dos grandes centros urbanos, da Amazônia e do semiárido brasileiro.

Esperamos que o material inspire reflexões e ações que extrapolem os padrões rígidos ainda existentes nas estruturas escolares, visando estabelecer novos repertórios que levem a educação a um novo patamar de qualidade, onde falar de escola inclusiva será um pleonasmo.

Rodrigo Hübner Mendes,
SUPERINTENDENTE DO INSTITUTO RODRIGO MENDES

Gary Stahl,
REPRESENTANTE DO UNICEF NO BRASIL

Introdução

O projeto “Portas abertas para a inclusão — Educação física inclusiva” nasceu de uma parceria entre o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a Fundação FC Barcelona e o Instituto Rodrigo Mendes (IRM), e começou em 2012 com o objetivo de formar educadores de diversas regiões do Brasil para apoiar a promoção da inclusão escolar de meninas e meninos com deficiência por meio de práticas esportivas seguras. Dessa maneira, o “Portas abertas” dialoga com as garantias dos direitos humanos desse público expressos na Constituição brasileira e com a Convenção sobre Direitos das Pessoas com Deficiência bit.ly/convencao-onu , aprovada na ONU em 2006 e ratificada pelo Brasil em 2008.

“Ao contribuir para a garantia dos direitos das crianças com deficiência, o Portas abertas contribui também para que o Brasil efetive a Convenção sobre os Direitos da Criança, da qual é signatário. Segundo a convenção, é dever do País garantir que cada uma dessas crianças possa desfrutar de uma vida plena e decente em condições que garantam sua dignidade, favoreçam sua autonomia e facilitem sua participação ativa na comunidade”, defende Gary Stahl, representante do UNICEF no Brasil.

A educação física, quando inclusiva, atua como uma vigorosa ponte para aquilo que almejamos da escola: desafio, interação e aprendizagem com alegria.
Rodrigo Hübner Mendes, Superintendente do IRM

Os megaeventos sediados no país nos últimos anos — como a Copa do Mundo FIFA 2014 e os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 — impulsionaram a criação e a ampliação do projeto “Portas abertas”, respectivamente. “O projeto, entretanto, vai além desse cenário esportivo na medida em que seus realizadores acreditam que o esporte e as atividades físicas podem ser ferramentas de inclusão de estudantes que são usualmente deixados de fora do cotidiano escolar”, diz Ítalo Dutra, chefe da área de Educação do UNICEF. Tais ferramentas têm o potencial de aumentar o interesse dos alunos pela escola e melhorar seu desempenho de uma forma geral.

O relato de Rosemary Sousa, cursista do projeto em Belo Horizonte (Minas Gerais), ilustra de forma clara esse ponto: “Na socialização, a felicidade no rosto durante a participação das crianças já dizia tudo. Quando sentimos que fazemos parte de algo, que podemos ser também atores, sentimos que podemos tudo!”. Além disso, depoimentos apontam o avanço no desenvolvimento cognitivo dos estudantes. Dalvani Câmara, cursista de Natal (Rio Grandes do Norte), contou: “Os alunos com deficiência tiveram uma aprendizagem muito significativa, pois passaram a participar mais ativamente não só das aulas de educação física, mas de todas as disciplinas”.

IMPACTOS
2012-2016
15
Estados participantes
1.129
Cursistas certificados
91.325
Estudantes impactados

O objetivo do “Portas abertas” é, por fim, apoiar redes públicas de educação para a garantia de acesso, permanência, aprendizagem e conclusão do ensino de estudantes público-alvo da educação especial1 (crianças e adolescentes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação) na educação infantil e ensino fundamental, por meio da ressignificação da educação física.

Assim, em 2016, mais de 43 mil alunos, professores, gestores, familiares, entre outras pessoas envolvidas, foram diretamente beneficiados pelos projetos locais de intervenção, criados e implementados em 16 cidades pelos cursistas do “Portas abertas”.

O objetivo do “Portas abertas” é apoiar redes públicas de educação para a garantia de acesso, permanência, aprendizagem e conclusão do ensino de estudantes com deficiência.
Materiais “Portas abertas” 2016

Essa coletânea faz parte do conjunto de materiais desenvolvidos com a intenção de compartilhar o conhecimento nos âmbitos nacional e internacional. São eles um Relatório de impactos, também disponível em formatos PDF e HTML, e vídeos que detalham 12 experiências e seus pontos mais importantes, apresentando as atividades desenvolvidas em algumas das cidades visitadas. Todas as publicações do “Portas abertas” estão disponíveis nos sites: rm.org.br/portas-abertas e unicef.org.br.

Linha do Tempo
O legado do "Portas abertas"

O “Portas abertas” não encerrou sua atuação com o fim dos megaeventos sediados no Brasil nos últimos anos. Pelo contrário, configura-se como um verdadeiro legado social, ganhando novas possibilidades de atuação e fortificando-se como um projeto que já impactou 91.325 estudantes desde sua primeira edição.

Em 2016, o “Portas abertas” desdobrou-se em uma exposição fotográfica que ilustra, nas lentes de Pat Albuquerque, cenas de alguns dos projetos desenvolvidos pelos cursistas ao longo do projeto. A itinerância começou durante os Jogos Paralímpicos Rio 2016, no evento organizado pelo UNICEF Brasil e Consulado Britânico no Rio de Janeiro, com o seminário “Quando todos jogam juntos, todos ganham”, realizado na Casa Paralímpica Britânica (British House). Com a participação do embaixador britânico Alex Ellis e do representante do UNICEF no Brasil, Gary Stahl, o evento reuniu 150 professores, paratletas, parceiros do poder público e da sociedade civil em torno da temática sobre inclusão, esporte e brincar.

Na ocasião, Rodrigo Hübner Mendes apresentou resultados e histórias do “Portas abertas”, convidando ao palco dois ex-cursistas e professores no Rio de Janeiro — Antônio Carlos de Souza e Luiz Gustavo Firmino. Ambos contaram seus projetos de inclusão por meio da educação física na Escola Municipal Floriano Peixoto e no CIEP Padre Paulo Correa, respectivamente. No encerramento do seminário, os participantes foram convidados a conhecer a exposição no terraço da British House.

Da sede dos Jogos Rio 2016, a exposição viajou para o Museu do Futebol, em São Paulo (SP). Nesse espaço, cerca de 60 mil visitantes puderam interagir com o projeto, que disponibilizou um audioguia especial e um totem multimídia com 12 vídeos em formato regular, com legendas em inglês, e suas versões com recursos de acessibilidade: Libras e audiodescrição.

Transpondo fronteiras para disseminar as possibilidades de transformação que o esporte possui, em outubro de 2016, o superintendente do IRM participou do World Forum on Sport and Culture, realizado pelo World Economic Forum, em Tóquio (Japão). Em sua apresentação no painel “O impacto transformador do esporte” bit.ly/impacto-esporte, fez referências ao projeto “Portas abertas” e às experiências dos Jogos Paralímpicos no Brasil 2016, propondo avanços para a concepção dos Jogos Tokyo 2020.

Três garotos e uma garota vestem coletes azuis e, de mãos dadas, andam enfileirados em quadra de esportes.
Sobre o Projeto

A formação do “Portas abertas” foi realizada a partir de um modelo semipresencial: as aulas semanais eram transmitidas ao vivo pela internet para os cursistas, que se reuniam presencialmente nos polos. Entretanto, os principais pontos citados nos depoimentos de quem participou do curso mostram que o "Portas abertas" foi muito além da sala de aula em que os encontros aconteciam. Ao longo do processo formativo, os participantes eram convidados a criar um grupo de trabalho para construir uma mudança significativa em sua realidade escolar.

A gente não só tem que sair da zona de conforto como tirar dela os demais. Pensar em inclusão é pensar nossas práticas e nossas próprias deficiências nesse momento.
Gilberto Junior, cursista de Maceió (AL)
O projeto impactou e apontou fatores de sucesso para o melhor desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem, auxiliou a escola a estabelecer interlocuções com a comunidade.
Lauren Cristine Marra, cursista de Belo Horizonte (MG)

Durante todo o curso, os professores e as tutoras responsáveis pelas aulas e acompanhamento dos cursistas reforçam o quão importante é aproveitar ao máximo os horários de encontros coletivos para buscar trabalhos conjuntos e projetos que impactem toda a unidade escolar. Elizabeth Parente, cursista de Brasília (Distrito Federal), disse: "Não basta ao professor um cabedal de conhecimentos se ele não atuar na realidade da escola".

Para chegar a esse resultado, os grupos de cursistas são convidados a realizar um diagnóstico sobre a realidade de sua escola. Com base nesse retrato, planejam e implementam ações pedagógicas que explorem a educação física como uma linguagem que pode favorecer a inclusão na escola comum. O debate não se remete ao esporte de alto rendimento nem à abordagem esportivista: promove a discussão sobre como ressignificar as modalidades existentes e, quando possível, estimula a criação de atividades físicas inéditas. As ações dos profissionais impactaram, em 2016, 32.325 estudantes das redes públicas de ensino, sendo 2.163 estudantes público-alvo da educação especial.

Impactos

O curso de formação do “Portas abertas para a inclusão — Educação física inclusiva”, desenvolvido no período de março a novembro de 2016, teve 509 cursistas2 nas 15 capitais brasileiras e em Belford Roxo (RJ). A composição das turmas priorizou a heterogeneidade, envolvendo professores, gestores de escolas, técnicos das secretarias de educação e outros profissionais, conforme tabela abaixo.

Mapa do Brasil apresenta as cidades participantes do projeto na 1ª e 2ª edição: Manaus, Cuiabá, Brasília, Fortaleza, Natal, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Belém, São Luís e Maceió e na 3ª edição: Belford Roxo. O mapa é laranja e possui a legenda: Cidades participantes, divididas em verde e vermelho.
Cursistas por perfil
Coordenador(a) pedagógico(a) 30
Diretor(a) 27
Atendimento educacional especializado 76
Professor(a) de educação física 143
Professor(a) de outras disciplinas 2
Professor(a) regentes 29
Profissionais de apoio 5
Técnicos da secretaria municipal 24
Universitários(as) 3
Outros 8
Total geral 347

Já o impacto direto do “Portas abertas”, resultante de 119 projetos locais, foi de 43.528 pessoas. Dentre elas, 32.325 (74,2%) eram estudantes das redes públicas de ensino, sendo 2.163 estudantes com deficiência.

Gráfico colorido em formato de pizza com segmentação de cursistas no Brasil. Legenda: Diretores: 1,3%; Coordenadores 0,7%; Professores de educação física: 0,8%; Professor de atendimento educacional especializado: 0,4%; Professor de outras disciplinas: 3,9%; Profissionais não docentes: 2,1%; Estudantes com deficiência: 5,0%; Outros estudantes: 69,5% e Familiares 16,5%.
DIRETORES(AS) 562 1,3%
COORDENADORES(AS) 293 0,7%
PROFESSORES(AS) DE EDUCAÇÃO FÍSICA 333 0,8%
ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO 170 0,4%
PROFESSORES(AS) DE OUTRAS DISCIPLINAS 1.691 3,9%
PROFISSIONAIS NÃO DOCENTES 900 2,1%
ESTUDANTES COM DEFICIÊNCIA 2.163 5,0%
OUTROS ESTUDANTES 30.162 69,5%
FAMILIARES 7.154 16,5%
Total 43.528 100%
IMPACTOS 2016
119
Projetos desenvolvidos
347
Cursistas certificados
43.528
Pessoas impactadas, dentre elas 32.325 crianças e adolescentes
Metodologia

O Instituto Rodrigo Mendes possui um modelo conceitual que orienta suas ações em prol da educação inclusiva, envolvendo princípios e dimensões da educação inclusiva. Começou a ser desenvolvido a partir de 2010 quando o centro de estudos do IRM passou a ganhar mais evidência e, desde então se encontra em aprimoramento constante. O modelo foi elaborado a partir da análise de documentos considerados referências internacionais para a garantia de direitos das pessoas com deficiência, como:

SAIBA A DIFERENÇA

Integração

Escolas e classes especiais, onde estudantes com deficiência estudam com colegas considerados seus iguais = diversidade subtraída e busca pela homogeneização.

X

Inclusão

Instituição se adapta e modifica, altera o ambiente para que todos transitem com autonomia e a equipe pedagógica varia seus recursos didáticos = participação de todos.

Conheça mais detalhes sobre a metodologia do IRM e o paradigma da inclusão no Relatório de impactos disponível em: rm.org.br/portas-abertas.
Dois garotos jogam capoeira no centro de uma roda onde os demais batem palmas.  No centro, um deles dá uma pirueta apoiado com as mãos no chão e o outro, em uma cadeira de rodas, curva seu tronco para frente.
Conceito de educação física inclusiva

O esporte para pessoas com deficiência teve seu início após a Primeira Guerra Mundial como forma de tratamento médico de soldados que adquiriram impedimentos permanentes. A partir dos jogos anuais desenvolvidos no “Stoke Mandeville Hospital”, na Inglaterra, no final da Segunda Guerra Mundial, o movimento ganhou força, culminando com a criação das primeiras Paralimpíadas, em 1960, na cidade de Roma.

No Brasil, o esporte adaptado foi introduzido no final da década de 1950. A participação brasileira em eventos esportivos internacionais para pessoas com deficiência ganha expressão desde então.

Essa evolução do esporte acabou influenciando também o ambiente da escola. Inicialmente, os estudantes com deficiência não participavam das aulas de educação física, sendo, muitas vezes, dispensados dessa disciplina. Para praticar atividades físicas, esses estudantes precisavam buscar alternativas em instituições que ofereciam atividades na área do esporte adaptado, que buscavam o desenvolvimento de atletas de alto rendimento. A atividade adaptada para os estudantes com deficiência, na escola, significa uma prática separada dos colegas.

Na educação física inclusiva, todos os estudantes participam das mesmas atividades. Para isso, cabe ao professor planejar as aulas de acordo com as especificidades dos estudantes de cada turma. O objetivo é o desenvolvimento afetivo, cognitivo e psicomotor não só dos estudantes com deficiência mas de todos os estudantes. Além disso, compartilha a visão contemporânea de educação física, que rompe com o foco no esporte competitivo. O convívio é um fator fundamental para que esse objetivo seja atingido.

Outro ponto importante é o grande potencial que a educação física tem para a interdisciplinaridade. Esse é um conceito fundamental quando se aborda a educação física inclusiva, na medida em que pode ser uma forma de tornar o ensino mais prazeroso e, ao mesmo tempo, de aprofundar questões importantes para a aprendizagem dos estudantes.

Um projeto interdisciplinar é aquele em que educadores buscam pontos de contato e constroem estratégias pedagógicas integradas a outras disciplinas. Além do exercício de sair da própria área, é imprescindível que o profissional de educação física participe ativamente das discussões de planejamento pedagógico da escola.

Mais um aspecto a se destacar é a flexibilização de alguns elementos da prática da educação física, como recursos e regras. Recursos são estruturas e suportes necessários para o desenvolvimento das atividades que compõem a educação física, tais como equipamentos, infraestrutura, equipe de apoio e intérpretes. Já as regras podem ser definidas como um conjunto de diretrizes, normas e procedimentos que definem os objetivos, as permissões e as restrições de uma atividade.

Um professor de educação física, ao avaliar os estudantes com quem vai trabalhar, pode precisar flexibilizar tanto as regras quanto os recursos. Dessa forma, podemos pensar num contínuo que vai desde nenhuma ou pouca alteração até uma transformação intensa das regras e recursos originais.

Para ler mais sobre o conceito de educação física inclusiva, acesse o estudo de caso disponível no DIVERSA: http://bit.ly/educacao-fisica-inclusiva.

Princípios da educação inclusiva

Os princípios da educação inclusiva são direcionadores e evidências de um amadurecimento histórico internacional sobre os direitos básicos e as políticas para que as pessoas com deficiência tenham de fato a autonomia garantida. Os documentos oficiais traçam parâmetros que servem como balizadores do movimento mundial tendo como base as mobilizações e as conquistas da sociedade civil. Rodrigo Hübner Mendes, superintendente do IRM, reforça: “São princípios que direcionam um amadurecimento histórico, e esse é o grande papel desses acordos: propiciar condições coerentes desse amadurecimento”.

O acesso à educação de qualidade está ligado ao entendimento dos direitos dessa parte da população. Os princípios e as dimensões que foram sendo fortificadas por meio dos documentos servem como um guia para o desenvolvimento de experiências educacionais inclusivas e foram utilizados como base conceitual para a concepção didática do curso de formação do “Portas abertas”. São eles:

Toda pessoa tem o direito de acesso à educação de qualidade na escola comum e a atendimento especializado complementar, de acordo com suas especificidades.

Toda pessoa aprende: sejam quais forem as particularidades intelectuais, sensoriais e físicas do educando, todos têm potencial de aprender e ensinar; é papel da comunidade escolar desenvolver estratégias pedagógicas que favoreçam a criação de vínculos afetivos, relações de troca e a aquisição de conhecimento.

O processo de aprendizagem de cada pessoa é singular: as necessidades educacionais de cada educando são únicas e devem ser atendidas por meio de estratégias pedagógicas e processos de avaliação diversificados.

O convívio no ambiente escolar comum beneficia todos: a interação com as diferenças humanas é fundamental para o desenvolvimento de qualquer um, à medida que amplia a percepção dos educandos sobre pluralidade, estimula sua empatia e favorece suas competências intelectuais.

A educação inclusiva diz respeito a todos: a educação inclusiva, orientada pelo direito à igualdade e o respeito às diferenças, deve considerar não somente as pessoas tradicionalmente excluídas, mas todos os educandos, educadores, famílias, gestores escolares, gestores públicos, parceiros e etc.

Além do estabelecimento de princípios, o Instituto Rodrigo Mendes desenvolveu uma série de estudos de caso sobre escolas publicamente reconhecidas por atenderem com qualidade estudantes com deficiência em salas de aula comuns. O acervo desses estudos de caso sobre experiências exitosas de educação inclusiva está disponível no portal DIVERSA: diversa.org.br.

O acesso à educação de qualidade está ligado ao entendimento dos direitos dessa parte da população [pessoas com deficiência].
Dimensões de análise da educação inclusiva
Gráfico representa por meio da interseção de bolas coloridas as dimensões de análise da educação inclusiva: políticas públicas, parcerias, família, estratégias pedagógicas, gestão escolar e aprendizagem. O diagrama tem o formato de flor e a palavra aprendizagem está ao centro.

A partir de uma metodologia inspirada nos “cases studies” da Universidade de Harvard, foram construídas dimensões de análise de fenômenos educacionais, mais notadamente das escolas, por serem instituições sociais legitimadas para a construção de conhecimento socialmente construído por nossa sociedade. Importante ressaltar que os aspectos históricos e territoriais foram considerados na confecção dessas dimensões. São elas: Políticas públicas, Gestão escolar, Estratégias pedagógicas, Famílias e Parcerias.

Esse modelo conceitual é uma ferramenta que dialoga com a complexidade do tema da educação inclusiva e busca contemplar seus diversos atores. É importante ressaltar que cada dimensão tem sua particularidade e, ao mesmo tempo, é interdependente das demais. Finalmente, na articulação dessas dimensões com os atores concretos da escola, busca-se entender como se dá a aprendizagem para apresentar a todas e todos não uma formulação universal ou uma receita pronta, mas sim uma possibilidade de atuação baseada numa experiência empírica que deverá ser ressignificada por cada educadora e educador que nela se inspirar.

Políticas públicas

Refere-se a todos os aspectos de criação e gestão de políticas públicas que se relacionam com a educação inclusiva em um determinado país ou território. Abrange as instâncias legislativa, executiva e judiciária, impactando o conjunto de leis, diretrizes e decisões judiciais que buscam concretizar o direito à educação inclusiva.

De acordo com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva do Brasil, os órgãos públicos devem garantir a oferta de escolarização para os estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento (TGD) e altas habilidades/superdotação na escola comum. Além disso, esses órgãos devem suprir a demanda de atendimento educacional especializado (AEE) para esse público. Para tanto, é necessário prover acessibilidade em todos os níveis, assim como formação de educadores e funcionários, possibilitando a aprendizagem de estratégias didáticas e pedagógicas para lidar com tais educandos. O Índex para a Inclusão acrescenta que é papel das políticas públicas divulgar e colocar em ação valores inclusivos, por meio da legislação, de planos de governo e de campanhas de divulgação, entre outras ações.

Menino com síndrome de Down de óculos sorri. Atrás, uma menina acena com as mãos.
Os alunos com deficiência tiveram uma aprendizagem muito significativa, pois passaram a participar mais ativamente não só das aulas de educação física mas de todas as disciplinas.
Pâmmela Silva, cursista de Natal (RN)
1A Política Nacional de Educação Especial

A Política Nacional de Educação Especial de 2008 trouxe novas concepções à atuação da educação especial em nossos sistemas de ensino. Nela, obteve-se um avanço bastante significativo a favor da inclusão escolar eliminando a diferenciação de atendimento aos alunos, incluindo esses estudantes em ambientes comuns de escolarização e não mais em classes e escolas especiais. Saiba mais no DIVERSA: http://bit.ly/artigo-diferenciar-para-incluir.

2Índex para a inclusão

Criado na Inglaterra pelos pesquisadores Booth e Ainscow, trata-se de um conjunto de materiais para apoiar a revisão na escola de aspectos, como atividades no pátio, salas de professores e salas de aulas, além de outros relacionados à inclusão nas comunidades e no entorno da unidade escolar. O objetivo é encorajar todos os funcionários, pais e responsáveis e crianças a contribuírem com um plano de desenvolvimento inclusivo e colocá-lo em prática.

Gestão escolar

Refere-se às diversas etapas de planejamento e desenvolvimento das atividades de direção de uma instituição de ensino. Abrange a construção dos Projetos político-pedagógicos (PPPs), a elaboração dos planos de ação, formação de professores, a gestão dos processos internos da instituição e suas relações com a comunidade.

Para a Política Nacional, a gestão da escola é responsável por organizar espaços e recursos para a inclusão (englobando o atendimento especializado), além de favorecer uma cultura de promoção da aprendizagem e da singularidade e valorização das diferenças. Já o Índex ressalta o papel da direção da escola e da equipe pedagógica de instaurar valores que são essenciais para possibilitar a inclusão tanto entre os educadores quanto com os demais funcionários. A gestão deve visar a uma educação democrática, comunitária, que promova a saúde e a cidadania e combata o preconceito.

Estratégias pedagógicas

É necessária uma proposta pedagógica que atenda e atinja todos. Por isso, é preciso dar atenção às diversas etapas de planejamento e desenvolvimento das práticas voltadas ao ensino e à aprendizagem. Abrangem as atividades do ensino regular, as ações destinadas ao atendimento educacional especializado e o processo de avaliação de todos os estudantes.

Famílias

É a dimensão que foca as relações estabelecidas entre a escola e os familiares dos educandos. Ela abrange o envolvimento desse núcleo com o planejamento e o desenvolvimento das atividades escolares e contempla tanto as relações que favorecem a educação inclusiva como as situações de conflito e resistência.

O Índex sugere que a participação da família tenha como características o envolvimento e a aceitação de todos, a colaboração e o "estar juntos", por meio de um engajamento ativo tanto na aprendizagem quanto nas tomadas de decisão, privilegiando o diálogo e a parceria entre os educadores e os familiares.

Parcerias

Refere-se às relações estabelecidas entre a escola e os atores externos à instituição em que atuam para dar apoio aos processos de educação inclusiva. Tais atores podem ser pessoas físicas ou jurídicas e abrangem as áreas da saúde, da educação não formal, da assistência social e outras.

Para a Política Nacional, as parcerias entre escola e instituições especializadas são uma forma prioritária de prover o atendimento educacional especializado, seja a partir de organizações públicas ou iniciativas privadas conveniadas. Essas instituições devem agir no sentido de dar apoio à escola, numa modalidade complementar ou suplementar, mas nunca de forma substitutiva.

É necessário prover acessibilidade em todos os níveis, assim como formação de educadores e funcionários, possibilitando a aprendizagem de estratégias didáticas e pedagógicas.
Atividades inclusivas
Em roda numa quadra de esportes, professor orienta grupo de estudantes que se alonga esticando os braços para cima. Acima da imagem, mapa do Brasil com marcação que destaca cidade de Belém.
Minitênis: jogo com material reciclável
Usando giz, pneus, tela e tubos de PVC, a criançada pode exercitar a colaboração, em vez da competição.

Quando Itair Medeiros, Lena Selma Nascimento e Claudia Upton, da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Terezinha Souza, em Belém (Pará), levantaram as barreiras e os facilitadores à inclusão na instituição, perceberam que era imprescindível melhorar a parceria entre professores de aulas regulares e do Atendimento educacional especializado (AEE). Em conjunto, o trio multidisciplinar estruturou projeto do grupo e escolheu o minitênis para ser trabalhado com um recorte inclusivo.

Usando materiais reciclados e reutilizados para viabilizar o esporte, que em princípio tem alto custo, o minitênis passa a poder ser jogado por qualquer criança ou adolescente. Além disso, o tamanho das quadras pode variar de acordo com o número de pessoas, de forma a garantir a participação de todas ao mesmo tempo. A ideia era estimular as turmas dos anos iniciais até os anos finais do ensino fundamental a participarem conforme suas potencialidades. "O homem se move, não é a técnica. A técnica vem com o aprimoramento do movimento", justifica Itair Medeiros, professor de educação física.

A gente se permitia aceitar um a ideia do outro, perder aqui, ganhar ali. A inclusão passa pela tolerância.
Lena Nascimento, cursista de Belém (PA)
Usando materiais reciclados e reutilizados para viabilizar o esporte, o minitênis passa a poder ser jogado por qualquer criança ou adolescente.

Em um primeiro momento, ocorreu a sensibilização das crianças com conversa e exibição de vídeos na biblioteca sobre o tênis tradicional e o tênis em cadeira de rodas. Depois os estudantes construíram raquetes de papelão e bolinhas de papel amassado para sentir o gosto do esporte. Ao final, simularam uma limitação de movimento, colocando a mão dentro do saco plástico e prendendo-o com fita adesiva para pensarem em outras formas de jogar.

A visita ao Projeto Oikos, desenvolvido no Instituto Federal do Pará e voltado para a reciclagem, marcou o segundo encontro. Lá, a turma assistiu à produção de raquetes a partir de garrafa pet e isopor, ampliando o conhecimento sobre sustentabilidade e educação ambiental. Houve ainda uma segunda visita ao local para realizar uma oficina de reaproveitamento, além de teatro e brincadeiras lúdicas.

A confecção das miniquadras, oito no total, foi uma espécie de "desordem organizada", brinca Itair. A atividade, que se deu no terceiro encontro, usou pneus da oficina mecânica próxima, telas de fachada, tubos de PVC e giz para marcação. Os números sinalizados em quadrantes no chão tinham a proposta de servir a um trabalho interdisciplinar futuro com a professora de matemática. Nazaré Valente, de educação artística, orientou os estudantes na confecção das raquetes e ensinou técnicas de pintura para colori-las. A educadora Lena Nascimento entrou com o olhar especializado do AEE: "A gente se permitia aceitar um a ideia do outro, perder aqui, ganhar ali. A inclusão passa pela tolerância".

As regras do jogo se aproximavam do brincar, não do esporte rígido. Os professores mediavam a construção, mas os alunos experienciavam do seu jeito. Não era objetivo o saque correto ou a rebatida no tempo ideal, privilegiou-se a diversão. Os pequenos também não se preocupavam em ganhar pontos e se destacar, e ninguém foi pego reclamando com o colega por movimentos sem precisão. Antes do primeiro saque, cumprimentavam-se os adversários como forma de valorizar o outro. "Nem todos serão atletas ou ícones no esporte, mas todos serão cidadãos", lembra Itair.

Além das ações realizadas para a vivência do minitênis pelos estudantes, também foi organizada uma caminhada cívica com os alunos, que tiveram importante papel de conscientizar os moradores do entorno sobre a importância da inclusão. Além disso, foi revisto o projeto político-pedagógico da escola, que estava desatualizado.

Os benefícios do projeto são numerosos. Meninos e meninas com deficiência não estão mais isolados. "Eu vi crianças mais cooperativas, mais amáveis, mais amigas, ajudando umas às outras", lembra Lena. Educadores das outras disciplinas reconheceram que as atividades físicas são extremamente importantes para o crescimento dos estudantes. O grupo também envolveu as famílias, que perceberam como a educação física faz parte do processo de aprendizagem de seus filhos.

Em 2017, os professores seguirão desafiando os estudantes a irem além, partindo do movimento que já conseguem executar. Há também a proposta da criação de uma nova raquete feita de miriti, uma fibra típica da região que pode aumentar a durabilidade do objeto. E a escola pretende implementar momentos de troca de conhecimento e de socialização das ações entre os docentes. "A inclusão começa dentro de nós, é uma mudança interior, uma postura do profissional, que aprende a acolher as pessoas como elas são, independentemente de terem ou não deficiência", arremata Lena

Resumo da experiência
Objetivo – Possibilitar que crianças e adolescentes experimentem a prática do tênis em uma perspectiva inclusiva, incentivando a colaboração, em vez da competição.
Quem participou
1 professor de educação física
1 professora de AEE
1 professora de educação artística
1 gestora escolar
59 estudantes do ensino fundamental
Nem todos serão atletas ou ícones no esporte, mas todos serão cidadãos.
Itair Medeiros, cursista de Belém (PA)
Síntese da prática
Escola Terezinha Souza
Uma de frente para a outra, educadora e menina usam as testas para equilibrar uma laranja entre elas. Para manter a mesma altura, a professora está agachada. Acima da imagem, mapa do Brasil com marcação que destaca cidade de Cuiabá.
GINCANA FAMILIAR: INTERAÇÃO QUE POTENCIALIZA AS RELAÇÕES
Brincadeiras lúdicas, como o cabo de guerra e passa bambolê, aproximam os familiares da escola, melhorando o desenvolvimento das crianças.

Após notarem uma redução na presença das famílias das crianças na Escola Municipal de Educação Básica (Emeb) Juarez Sodré Farias, em Cuiabá, Tânia Pereira, coordenadora pedagógica, e as professoras Elisa Azevedo, de educação física, Katiuscia Marques, do Atendimento educacional especializado (AEE), e Silmara Godin, de sala comum, decidiram realizar um projeto com foco na participação desse grupo alvo por meio de atividades físicas e da discussão sobre inclusão.

A ausência das famílias e responsáveis, muitas vezes ocorre por falta de oportunidades, e não de interesse. Por isso, a primeira estratégia adotada pelas educadoras para incluir os familiares no processo de desenvolvimento das 310 crianças da instituição foi realizar um sarau com prosa para a comunidade — atividade que acabou tendo duas edições.

Na primeira edição do sarau, houve a exibição do clipe “O normal é ser diferente” bit.ly/normal-ser-diferente, de Jair Oliveira, e da animação espanhola “Cuerdas” bit.ly/cuerdas-filme, sobre a relação entre a órfã Maria e Nicolás, um menino com paralisia cerebral. Além disso, em ambas as edições, os participantes trocaram experiências sobre os estudantes e o trabalho de inclusão feito na própria Emeb.

A segunda estratégia do projeto foram atividades físicas que consideravam aspectos cooperativos e sensoriais, realizadas na Festa da família, uma substituição às comemorações de Dia dos pais e Dia das mães. Aproveitando o quórum privilegiado, as professoras comandaram atividades em que estudantes e seus familiares deveriam se identificar pelo tato, adivinhar imagens por gestos e estourar o balão dos colegas enquanto dançavam juntos.

A terceira estratégia foi a gincana familiar, dividida em duas edições, ambas no horário habitual de aula e com práticas lúdicas já conhecidas pelas crianças.

A primeira edição, para os estudantes de 5 anos, contou com criação de grito de guerra, música gesticulada, abacaxi (variação de meu mestre mandou), corrida dos pés amarrados, corrida do limão (equilibrando a fruta em uma colher), corrida do bambolê (arrastando o arco), cada coisa no seu lugar (guardar objetos em caixas das mesmas cores) e ainda: passa bambolê, dança da laranja e cabo de guerra (leia mais sobre as três últimas no resumo da experiência).

Na segunda edição, para os alunos de 4 anos, a corrida do bambolê, o cabo de guerra e cada coisa no seu lugar deram lugar à corrida dos sentados, em que os pequenos tinham de atravessar o espaço sem tirar o bumbum do chão. Em ambos os eventos, iniciados por alongamento com música, educadores e técnicos substituíram os familiares ausentes para que todos pudessem brincar juntos.

O depoimento dos familiares presentes nos saraus se espalhou, rendendo pedidos de repeteco. Além disso, todo mundo parece ter se divertido nas gincanas. E, aos poucos, as famílias se aproximam cada vez mais da escola. “As atividades proporcionam para a gente interagir não só com nossa filha mas com as outras crianças, professores e corpo docente. A atividade inclui todos e isso é muito bom para a Alice, porque dá oportunidade para ela brincar e conhecer outros amigos”, conta Amanda Vieira, mãe da estudante Alice Sofia.

Outros pontos importantes notados pelas educadoras: os estudantes estão mais parceiros, e a estratégia de se utilizar a educação física mostrou-se bastante eficaz.  “Quando o professor acredita e começa a inserir atividades que trazem a criança para as aulas de educação física, os colegas percebem que ela é mais um membro do grupo para fazer parte da brincadeira”, explica Márcia Cristina Albieri, facilitadora do projeto na Secretaria Municipal de Educação.

O projeto seguirá firme e forte, com a meta de criar mais momentos de diálogo com as famílias e de envolver outros educadores. E a disciplina da professora Elisa continuará o foco da empreitada, porque virou a paixão dos pequenos, onde eles mais se enturmam, onde todos podem se soltar. “As aulas de educação física são mágicas”, resume Katiuscia (AEE).

Resumo da experiência
Objetivo – Criar oportunidades para a participação ativa das famílias na vida escolar de seus filhos.
Quem participou
1 professora de educação física
1 professora de AEE
1 professora de sala comum
1 coordenadora pedagógica
196 estudantes da educação infantil
74 familiares
As atividades proporcionam para a gente interagir não só com nossa filha mas com as outras crianças, professores e corpo docente.
AMANDA VIEIRA, MÃE DA ESTUDANTE ALICE SOFIA
Síntese da prática
Escola Jarez Sodré Farias

As atividades da gincana familiar foram inspiradas nas aulas de educação física desenvolvidas ao longo do ano para que os pais vivenciassem um dia na Emeb Juarez Sodré Farias com seus filhos. E ganharam um olhar ainda mais inclusivo nas duas edições do evento.

Garoto em cadeira de rodas segura uma bola de vôlei no colo em uma quadra de esportes. Atrás, outros três alunos seguram bolas sentados em um banco. Acima da imagem, mapa do Brasil com marcação que destaca cidade de Curitiba.
MODALIDADES PARALÍMPICAS: EXPLORAÇÃO DOS SENTIDOS
Golbol, corrida guiada, bocha adaptada e vôlei sentado estimulam as crianças a se colocarem no lugar do outro, aproveitando o gancho da competição mundial.

O Centro de Educação Infantil (CEI) Professor Ulisses Falcão Vieira, em Curitiba, tem o maior número de estudantes com deficiência da regional. Pensar atividades que os incluam, portanto, faz parte da rotina das professoras Viviane Caron e Gisele Fabiano, de educação física. Elas contam com o suporte de Elaine Cristina Martins, representante da Coordenadoria de Atendimentos de Necessidades Especiais do Núcleo de Educação Regional. E, em 2016, ganharam o reforço do “Portas abertas”

A ideia foi aproveitar o gancho das paralimpíadas, sediadas no Brasil, para desenvolver um projeto de modalidades esportivas adaptadas, abrangendo todas as turmas do 1º ao 5º ano. A primeira estratégia consistiu em uma pesquisa acadêmica sobre o assunto, feita pelos alunos dos quartos anos, seguida por roda de conversa para pensarem juntos as flexibilizações.

Jogos e brincadeiras tradicionais marcaram a segunda estratégia, proporcionando uma vivência rica de sentidos. Para aumentar o leque de opções, rolou até enquete com os pais sobre seus passatempos favoritos de infância. Ao final de todas as aulas, os meninos e meninas compartilhavam o que sentiram fazendo a atividade e sugeriam modificações nas regras.

A empreitada terminou com a Semana paralímpica, terceira estratégia, em que os estudantes passaram a ver as potencialidades dos colegas, e não somente as limitações. A abertura ficou por conta do Grupo de dança folclórica italiana da Apae Curitiba e não faltou a solenidade clássica da tocha. Foram realizadas diversas atividades paralímpicas, como bocha, vôlei sentado, corrida vendada e golbol.

Essas práticas possibilitaram que estudantes que tinham dificuldades com a educação física passassem a participar com entusiasmo, melhorando a relação dos estudantes com outras disciplinas e rotinas da escola e, finalmente, criam uma cultura onde estudantes com deficiência são considerados na construção de atividades físicas.

O projeto deve continuar em 2017, abraçando também as turmas da manhã. “Nós estamos aprendendo dia após dia. Algumas coisas a gente acerta; outras, erra, e assim vai crescendo. O importante é caminhar. Ninguém tem a obrigatoriedade de acertar sempre”, incentiva Elaine Cristina.

Resumo da experiência
Objetivo – Proporcionar a vivência de esportes paralímpicos estimulando cooperação e empatia.
Quem participou
2 professores de educação física
1 PROFESSORA DA COORDENADORIA DE ATENDIMENTOS DE NECESSIDADES ESPECIAIS DO NÚCLEO DE EDUCAÇÃO REGIONAL (CANE)
960 estudantes do 1º ao 5º ano
2 familiares
Práticas que criam uma cultura onde estudantes com deficiência são considerados na construção de atividades físicas.
Síntese da prática
CEI Professor Ulisses Falcão Vieira

Para promover a paralímpiada da escola, as educadoras trabalhavam um esporte diferente a cada semana. Os estudantes, que também participavam do processo de flexibilizações das regras, realizaram pesquisas sobre esportes adaptados para construir a proposta de forma colaborativa.

Crianças correm e dançam em quadra escolar, usando pinturas no rosto e vestindo fantasias. Elas seguram pássaros feitos com papel dobrado. Um garoto em cadeira de rodas está no centro. Acima da imagem, mapa do Brasil com marcação que destaca cidade de Fortaleza.
MUSICAL INCLUSIVO: DANÇA, EXPRESSÃO CORPORAL E DIVERSIDADE
Tema da cultura corporal, que também pode ser trabalhado na educação física escolar, a dança usa estímulos sonoros, visuais e táteis para favorecer o desenvolvimento e a aprendizagem dos estudantes. Afinal, nem só de correria e bola é feita a educação física.

Professora de jazz há mais de 20 anos, Márcia Gurgel sugeriu aos colegas de curso e de trabalho na Escola Municipal Haroldo Jorge Braun Vieira, em Fortaleza, a produção de um musical. Mexer no horário de planejamento dos docentes da instituição para encaixar os ensaios foi um desafio no início. Mas, quando os educadores assistiram aos primeiros passos das crianças, se emocionaram e resolveram participar.

Márcia comenta que a dança tem esse poder de contagiar tanto quem está dentro quanto quem está fora. Junto com Maria Alice dos Santos, coordenadora pedagógica, Valdícia Falcão, do Atendimento educacional especializado (AEE), escolheram adaptar a história de “O Rei Leão”, pela relação com a temática da diversidade. Expulso do bando, Simba cresce sozinho na floresta, precisando lidar com todo tipo de animais e, para sobreviver sem o apoio da família, busca o acolhimento em outros grupos.

A primeira estratégia do projeto foi realizar uma reunião com a comunidade escolar para explicar a importância da iniciativa, já que “o trabalho da inclusão tem de ser coletivo”, explica Valdícia. Ao final do encontro, houve a exibição de um trecho do musical, que serviu de inspiração para a versão cearense. Para as crianças entenderem o roteiro, foi projetado o filme da Disney.

Atividades interdisciplinares de acordo com o nível de cada turma foram a segunda estratégia, propiciando a integração de professores de diferentes disciplinas e garantindo que todos os estudantes participassem da empreitada. O 1º ano participou de um debate sobre os personagens; o 2º ano recriou a história com bichos em miniatura; o 3º fez cruzadinhas; o 4º produziu textos; e o 5º ano desenhou quadrinhos. A letra da música “O ciclo sem fim” foi trabalhada nas aulas de português. E, no AEE, pranchas de comunicação temáticas facilitaram a aprendizagem dos alunos com deficiência intelectual.

A última estratégia ficou por conta dos ensaios da coreografia para todos os alunos interessados e com disponibilidade no contraturno. Márcia confessa que, no início, era difícil conter a agitação. Depois, percebeu que bastava soltar a música para conseguir a atenção efetiva das crianças.

Durante o percurso, as famílias se deram conta dos benefícios do projeto para seus filhos, e as faltas cessaram. Maria Liliane Martins, mãe do Emerson Davi, que tem transtorno do espectro autista (TEA) e interpretou o Simba, passou a se interessar mais pelo desempenho dele nas outras disciplinas e a frequentar mais a escola. A mudança no comportamento do pequeno, aos olhos dos professores, foi grande.

A apresentação do musical serviu para fortalecer a autoestima e a autonomia dos estudantes, além de mostrar aos familiares a potencialidade e desenvoltura de seus filhos. Emerson, menino extremamente tímido, se soltou imitando o leão para os amigos e está mais concentrado nas aulas.

Guilherme, que também tem autismo e apresenta dificuldade de se entrosar com as outras crianças, cantava as músicas em casa visivelmente empolgado com o musical, e a avó diz que ele quer continuar a produção de desenhos. Raissa e Mariane, do turno da tarde, chegavam mais cedo à escola para ensaiar. Todo mundo perguntava pelo musical, demonstrando vontade de estar presente e fazer a diferença. “A gente fazia dança, cantava, e adorava muito o ensaio. Eu queria voltar a dançar, queria muito. Fiquei muito alegre!”, diz Guilherme.

Maria Alice, a coordenadora pedagógica, percebeu que a socialização proporcionada pela educação física ajuda os estudantes a melhorarem nas outras disciplinas e é tão essencial quanto aprender matemática ou português. O projeto continuará em 2017, com mais alunos e músicas, para poder contar a história inteira do rei da selva, sem recortes. Quase 25 anos de docência depois, Márcia entendeu que, para uma escola ser realmente inclusiva, cada um importa. “A diversidade do musical serviu como ganho para a inclusão. Mostrar que todos somos diferentes, mas, ao mesmo tempo, somos iguais. Todos são capazes de fazer uma dança dessa e participar. E era isso que a gente queria provar para eles!”, conclui Márcia.

Resumo da experiência
Objetivo – Favorecer o desenvolvimento de habilidades corporais, por meio de estímulos sonoros, visuais e táteis.
Quem participou
1 professora de educação física
1 PROFESSORA DE AEE
1 COORDENADORA PEDAGÓGICA
261 ESTUDANTES DO ENSINO FUNDAMENTAL
20 familiares
A diversidade do musical serviu como ganho para a inclusão. Mostrar que todos somos diferentes, mas, ao mesmo tempo, somos iguais. Todos são capazes de fazer uma dança dessa e participar.
MÁRCIA GURGEL, CURSISTA DE FORTALEZA (CE)
Síntese da prática
Escola Haroldo Jorge Braun Vieira

Primeiro, os estudantes assistiram ao filme “O Rei Leão” para entender a história. Depois, estudaram a letra da música “O ciclo sem fim” na aula de português. E só então começaram os ensaios para o musical, duas vezes por semana.

Menino e menina engatinham em sentidos opostos sob uma trama de barbantes amarrados no topo de cones.
MOVIMENTO E LUDICIDADE: MÚSICA “DONA ARANHA” INSPIRA DE TEATRO A CIRCUITO PSICOMOTOR
Atividades lúdicas ajudam os pequenos a desenvolverem habilidades físicas, motoras, emocionais e socioemocionais, partindo do concreto para o abstrato.

O Centro Municipal de Educação Infantil (Cmei) Argentina Barros, situado em Manaus, atende crianças de 4 a 5 anos, faixa etária que demanda atenção especial dos professores. Em oito salas dos períodos matutino e vespertino, há dois estudantes com transtorno do espectro autista (TEA) e um com baixa visão.

Para cumprir o desafio proposto pelo curso “Portas abertas”, os educadores contaram com o apoio da Caravana de educação física, iniciativa da Secretaria Municipal de Educação. A cada visita (quinzenal ou mensal), os profissionais da caravana atuam com uma turma diferente, trabalhando movimentos nas aulas e turbinando o desenvolvimento dos pequenos que não contam com a disciplina de educação física no currículo.

O objetivo do projeto foi oferecer formação sobre inclusão para a comunidade escolar, sensibilizar as famílias para aceitar as diferenças e melhorar a socialização e a interação dos alunos, beneficiando meninas e meninos. Carla Ferreira, gestora da escola, Rosalina Araújo e Ely Lima, professoras regentes, e Adilai Cunha e Alexandre Romano, da caravana, convidaram o professor Dr. Portos, do Complexo Municipal de Educação Especial André Vidal, para completar o grupo.

Fazer uma reunião com os familiares e professores da Argentina Barros foi a primeira estratégia da empreitada. Por questionário, eles citaram as dificuldades enfrentadas em sala de aula, as metodologias utilizadas e o que buscavam de conhecimento. A visita ao complexo de educação especial André Vidal marcou a segunda estratégia, para conhecer possibilidades de trabalho com crianças com deficiência.

A terceira estratégia uniu diversas atividades sob a temática de “A Dona Aranha”, música querida pelos pequenos, para que ninguém ficasse de fora. Primeiro, eles aprenderam a “cantá-la” em Libras, a Língua Brasileira de Sinais usada pelos surdos, treinando a coordenação motora fina, além de entrarem em contato com outras formas de comunicação.

Por conta da sensibilidade e adaptação dos alunos, alguns com TEA inicialmente evitavam as atividades coletivas onde havia palmas e outros barulhos mais altos. A professora substituiu temporariamente o aparelho de som por um canto à capela, cujo volume aumentava discretamente a cada aula, para ir integrando, aos poucos, os colegas aos ensaios.

Paralelamente, estudaram a vida dos aracnídeos, onde moram e o que comem. Passaram, então, para os exercícios de pintura, desenho, montagem e colagem.

Na sequência, almejando instigar a imaginação, veio o teatro de fantoches. Por fim, os circuitos psicomotores, um simples e outro mais complicado, simulando teias de aranha com barbantes presos a cones de segurança.

A ideia da aventura lúdica foi trabalhar noções de direção e espaço, lateralidade e coordenação motora global. Flexibilizações simples foram feitas para incluir as crianças, como afastar os cones para garantir a correta execução do trajeto. “Às vezes, a gente pensa que precisa mudar a atividade, mas basta um ajuste, e as coisas vão fluindo”, explica Adilai.

A professora achou que os alunos enjoariam rápido das repetições, mas, quanto mais eles participavam, mais se interessavam. Caio Renan de Sousa está menos agressivo e Roberto Vinicius de Moraes não fica mais sozinho. Os familiares dos outros estudantes também mudaram o olhar para as crianças que têm deficiência, antigamente “culpadas” por tirarem tempo de cuidado de seus filhos.

O projeto continuará em 2017, já que os educadores abraçaram de verdade a iniciativa. Eles planejam, por exemplo, uma oficina de produção de material didático para melhorar o suporte pedagógico nas atividades. “A criança consegue desenvolvimento. Nós, professores, devemos apenas potencializar esse trabalho, dentro do espaço e do tempo dela, não do nosso”, aprendeu Rosalina.

Resumo da experiência
Objetivo – Desenvolver habilidades físicas, motoras e emocionais, por meio da ludicidade.
Quem participou
8 PROFESSORAS DE SALA COMUM
2 PROFESSORES DA CARAVANA DE EDUCAÇÃO FÍSICA
1 gestora
192 ESTUDANTES DO 1º E 2º ANO DA EDUCAÇÃO INFANTIL
25 familiares
Síntese da prática
Cmei Argentina Barros
Adolescente com aparelho auditivo sorri e gesticula com uma colega. Eles vestem camisetas com estampa que diz “CoraLibras”. Acima da imagem, mapa do Brasil com marcação que destaca cidade de Natal.
ATIVIDADES NO PARQUE: ENVOLVIMENTO COM A COMUNIDADE
Exercícios corporais, jogos e brincadeiras realizados em espaço público estreitam laços com a comunidade, potencializando o trabalho da escola

A Escola Municipal Amadeu Araújo, localizada em Natal, já se preocupava com a inclusão de todos os seus alunos em sala de aula. Mas os cursistas do “Portas abertas” Arlindo José de Souza, professor de educação física, e as colegas do Atendimento educacional especializado, Ana Cleide Souza e Késia do Nascimento, perceberam que, para provocar modificações significativas e duradouras, precisariam incluir toda a comunidade escolar no processo — especialmente as famílias.

A primeira estratégia foi realizar uma formação continuada com a comunidade sobre o tema da inclusão. Os encontros ajudaram no planejamento da instituição, anteriormente feito em apenas quatro reuniões, e dissecaram a legislação relacionada às pessoas com deficiência, já que a maioria das famílias desconhece os direitos de seus filhos. Houve ainda a redação de uma carta à Secretaria Municipal de Educação, reivindicando as garantias previstas por lei.

A segunda estratégia consistiu na exibição e discussão de filmes para sensibilizar profissionais e estudantes, impactando 30 turmas. Os anos iniciais assistiram à animação espanhola “Cuerdas” bit.ly/cuerdas-filme, sobre a amizade entre a órfã Maria e Nicolás, um menino com paralisia cerebral. Os alunos do 6º ao 9º ano e da Educação de jovens e adultos viram “Como estrelas na terra”, história do indiano Ishaan Awasthi, que reverte o fracasso escolar com a descoberta da dislexia, e “Meu pé esquerdo”, em que o tetraplégico Christy Brown supera limitações físicas para se tornar pintor.

A terceira e última estratégia ficou por conta das atividades no Parque das Dunas, com a participação de alunos e ex-alunos, familiares, outras escolas — o Centro Municipal de Educação Infantil Maria Abigail e a Escola Estadual Arquiteta Elizabeth de Fátima de Araújo Guilhermino —, pessoas da comunidade do entorno e até de quem passeava pelo local.

Entre as apresentações artístico-culturais, destacaram-se o CoraLibras e o grupo Assalto Literário. Nas dinâmicas sensoriais, Fotografia às cegas botou o pessoal vendado para clicar com a orientação de um amigo, trabalhando os demais sentidos e a confiança no outro — as imagens renderam uma exposição. Na lista de brincadeiras, houve o clássico circuito com barreiras e a corrida sobre rodas, aproveitando o gosto da criançada por velocidade e competição, todos nas cadeiras de rodas.

A bilocha e o vôlei de toalha marcaram os jogos cooperativos. Mistura de bocha e bolinha de gude (também conhecida como “biloca”), a bilocha propicia a participação de todos, uma vez que uma parte do grupo discute as estratégias, enquanto outra arremessa as bolas. Já o vôlei adaptado usa a toalha para conectar os competidores, que precisam jogar em duplas dentro do próprio time. Esse comportamento em quadra extrapola para a vida transformando “um contra o outro” em “todo mundo junto”.

As atividades ocorriam ao mesmo tempo, e cada professor coordenava uma delas. A ideia era juntar as mais variadas formas de expressão do ser humano. Ao final da empreitada, os estudantes passaram a interagir mais, e os pais puderam ver o potencial dos filhos e da atividade inclusiva. “O impacto na comunidade escolar fez com que a gente criasse uma onda de transformação”, afirma Arlindo.

Por parte dos educadores, o conformismo foi trocado por uma atuação mais crítica e exigente. Alisson Silva, professor de artes e música, percebeu o poder que a comunidade escolar unida tem de “fazer a coisa acontecer”. Aldenise Regina da Silva, de história, aproveitou a empatia despertada para se colocar mais no lugar dos estudantes.

A experiência será incluída no projeto político-pedagógico da instituição, a formação em 2017 se estenderá aos profissionais que ficaram de fora dessa edição e o evento em espaço aberto deve se tornar anual. Arlindo arrisca que uma iniciativa assim talvez nunca tenha um fim: “Você, na verdade, só vai aprimorá-la ano a ano, se cobrar de fazer algo melhor, algo a mais”.

Resumo da experiência
Objetivo – Permitir a participação igualitária de meninas e meninos em atividades físicas, proporcionando espaços de ação e reflexão da prática educacional inclusiva.
Quem participou
1 PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA
2 PROFESSORAS DO AEE
3 PROFESSORES DE SALA COMUM (HISTÓRIA, MATEMÁTICA E ARTES)
1 PROFESSOR DE MÚSICA
1 RESPONSÁVEL PELA BIBLIOTECA
1 COORDENADORA PEDAGÓGICA
802 estudantes
30 FAMILIARES E FREQUENTADORES DO PARQUE
Síntese da prática
Escola Amadeu Araújo

A atividades realizadas no Parque das Dunas e na escola foram diversas, mas duas se destacaram pela originalidade: a bilocha e o vôlei de toalha.

Três garotas sentadas seguram pincéis e potes de tinta para pintar desenho do planeta Terra em grande papel estendido no chão de madeira. Acima da imagem, mapa do Brasil com marcação que destaca cidade de Porto Alegre.
CIRCUITO DE BRINCADEIRAS: LIBERDADE PARA ESCOLHER
Partindo de interesses pessoais, os participantes se deslocam pelo espaço, interagem uns com os outros e se expressam da forma que sentirem vontade.

Laura Nobre, Ana Cristina Oliveira e Elenice Zaltron, cursistas do “Portas abertas”, não trabalham em unidades escolares, mas são, respectivamente, professoras da Secretaria Municipal de Esportes, Recreação e Lazer de Porto Alegre e funcionária do Instituto Popular de Arte Educação (IPDAE). Os locais que escolheram para desenvolver o projeto “Abraçando o mundo” também não têm quadro negro e carteiras enfileiradas, provando que a educação não formal também pode (e deve) ser inclusiva.

O parque Ramiro Souto e o ginásio Lupi Martins integram a secretaria, já a organização não governamental IPDAE abriga uma escola de música e a biblioteca comunitária Leverdógil de Freitas. A configuração atípica permitiu pensar, juntos, atividades que mudassem o olhar de dezenas de estudantes e educadores para as pessoas com deficiência, estendendo a acolhida a todos os biotipos, gêneros, raças, nacionalidades e classes sociais. Esse exemplo de articulação do poder público diretamente com os espaços em que atuam mostra que é possível fazer a diferença.

As três instituições parceiras possuíam a mesma carência de informação e sensibilização para a causa. Como compreender o outro se mostra frequentemente um desafio, eles basearam a iniciativa nos princípios do livro “O foco triplo”, de Daniel Goleman e Peter Senge: autoconsciência, empatia e relação com o mundo.

A primeira estratégia, batizada de “conhecendo para envolver”, foi realizar reuniões para apresentar os princípios às equipes das três instituições e levantar as atividades com potencial de gerar reflexão. Algumas estavam ligadas a um princípio específico, outras transitavam por vários. Para trabalhar a autoconsciência, eles identificaram a necessidade de criar momentos de observação de si mesmo. Empatia demandava estabelecer elos para se enxergar no outro. E a relação com o mundo surgia como um desdobramento.

“Eu, o outro e nós”, segunda estratégia, consistiu em vivenciar os princípios com estudantes, funcionários e a comunidade dos três espaços, por meio de jogos, brincadeiras, oficinas musicais e atividades físicas. As crianças aceitaram mais facilmente as diferenças do que os adultos. Mas foram os últimos que comentaram, ao final da empreitada, sobre a importância de perceber os colegas e conhecer suas histórias.

“Brincando de incluir”, terceira estratégia, levou 155 alunos, educadores e familiares ao ginásio Lupi Martins para participar de um circuito de artes e esportes. Além de abordarem os três princípios citados, as estações misturavam as expertises dos cursistas, transitando por ioga, música e arte circense. A ideia era dar liberdade para que cada um escolhesse onde se expressar e interagir.

A articulação do poder público diretamente com os espaços mostra que é possível fazer a diferença.

Para quebrar o gelo inicial, rolaram as brincadeiras de estátua, espelho (imitação) e caminhadas pela quadra. O clássico gaúcho “nunca três” virou “agora dois, três, quatro”, permitindo a experiência de estar só, em dupla ou com mais gente, de acordo com as instruções do professor. Na estação de artes plásticas, coordenada pelo artista Humberto Dutra, pincel, tinta e recortes de revistas estimulavam soltar a imaginação, individualmente ou em grupo. Os mais velhos começaram ajudando a molecada e logo estavam envolvidos na bagunça.

A estação de música ofereceu aos presentes exercícios de vocalização e respiração para aguçar os sentidos, além de repertório clássico e popular executado por estudantes do IPDAE durante o lanche. Os aperitivos, inclusive, foram preparados pelas famílias das crianças, com ingredientes fornecidos pela organização do evento e frutas trazidas de casa pelos participantes como estratégia de engajamento.

Em pé e descalços, grupo de adolescentes forma semicírculo entorno de educadora em chão acolchoado de quadra escolar. A frente deles, pessoas sentadas na arquibancada.

Cordas, bambolês, jabolôs (uma espécie de ioiô, maior), pernas-de-pau, cama elástica e piscina de bolinhas completavam o cenário para agradar todos os gostos. E os esportes não poderiam ficar de fora, em versões originais e flexibilizadas: judô, vôlei sentado e vôlei cego, futebol em dupla e vendado e até basquete de joelho. Na área externa do ginásio, os mais aventureiros passeavam de bicicleta tandem, aquela de dois lugares, sem enxergar para onde o condutor os levaria.

Adolescentes e adultos jogam basquete ajoelhados em chão acolchoado. Com as cabeças para cima, eles acompanham o movimento de uma bola lançada para a cesta.
Dois garotos com os olhos vendados por tecidos disputam bola em jogo de futebol. Atrás, outro jogador vendado acompanha a jogada.
Empatia demandava estabelecer elos para se enxergar no outro. E a relação com o mundo surgia como um desdobramento.

O dia terminou em paraquedas, um imenso tecido redondo movimentado coletivamente, uma metáfora do planeta. E pipocaram perguntas sobre a segunda edição do “Brincando de incluir”. Para 2017, ficou a missão de ampliar a discussão nas três instituições, contagiando mais professores.

Adolescentes e adultos em semicírculo batem palmas sob grande tecido laranja e branco.
Resumo da experiência
Objetivo – Permitir que todas as pessoas participem juntas das atividades, independentemente das características individuais.
Quem participou
2 PROFESSORAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA
1 COORDENADOR PEDAGÓGICO
15 OFICINEIROS
140 ESTUDANTES
15 FAMILIARES
Todos, mesmo que parecidos, somos diferentes. Mas essas diferenças que se sobrepõem ao que a gente vê como convencional nos desafiam.
ANA CRISTINA OLIVEIRA, CURSISTA DO “PORTAS ABERTAS”.
Síntese da prática
Parque Ramiro Souto Ginásio Lupi Martins Instituto Popular de Arte Educação
No centro de uma roda de capoeira, garota salta com bastões de madeira na mão enquanto estudante em sua frente ginga. À volta deles, alunos batem palmas e bastões de madeira. Acima da imagem, mapa do Brasil com marcação que destaca cidade de Recife.
CAPOEIRA: ESPORTE GINGADO
Mistura de dança, luta e música, a capoeira conquista todos, trabalhando a coordenação, a concentração e a noção de limites.

Há três anos, Márcio Luiz de Matos aceitou dar aula de capoeira em uma clínica psiquiátrica. Aprendeu tanto que resolveu estender o trabalho às crianças e aos adolescentes da comunidade onde vive, que também precisavam superar os próprios limites. É o caso de Fernando de Melo, estudante da Escola Municipal Antônio Heráclio do Rego, em Recife, que surpreendeu os professores e colegas quando contou que jogava capoeira em sua comunidade.

Os educadores da escola participantes do “Portas abertas” aceitaram, então, a proposta do aluno de fazer uma parceria com o grupo de capoeira do mestre Márcio e trazer a atividade para dentro da escola. O objetivo era sensibilizar as turmas do 6º ao 9º ano para a inclusão, além de aumentar a autoestima dos estudantes com deficiência, reduzindo o número de faltas.

A capoeira, além de incluir pessoas com deficiência, quebra também a barreira de gênero e de idade, pois tanto meninos quanto meninas, crianças, jovens e idosos podem participar. “É para todos e engloba todos, só que cada um da sua forma. Na forma de cantar, na forma de tocar e na forma de jogar”, explica Márcio.

Orlando Pacheco, professor de educação física, Elisangela Santana, do Atendimento educacional especializado (AEE), e Edilma Bezerra, do AEE de outra instituição, contornaram o preconceito das famílias, que costumam confundir a prática com candomblé ou “coisa de malandro”, e improvisaram uma roda para testar a aceitação dos estudantes. Essa foi a primeira estratégia da empreitada. Como todo mundo gostou, convidaram Márcio para ser o facilitador.

A segunda estratégia ficou por conta da palestra sobre a história da capoeira, os movimentos, a musicalidade e a importância para o desenvolvimento físico e mental, além da socialização. Como o espaço era pequeno, houve inscrição de interessados para limitar as 40 vagas. E, ao final, os alunos puderam curtir o batuque e o gingado.

A roda de capoeira oficial marcou a terceira estratégia, somando 90 entusiastas. Fernando impressionou os amigos com sua desenvoltura, jogando tanto sentado na cadeira como também realizando os movimentos diretamente no chão. E quem estava envergonhado ou receoso de arriscar uns passos acabou tomando coragem — também era possível só cantar e palmear. Alguns experimentaram tocar o atabaque (tambor alto) e o pandeiro.

Atualmente, 95% dos estudantes do período integral participam da iniciativa. Mas os educadores querem conquistar os 5% restantes em 2017. Além disso, não só a frequência do Fernando nas aulas melhorou como o comportamento também. “A inclusão é todo dia, não termina com o projeto. Todo instante é momento de jogar a sementinha”, justifica Edilma, que também pretende inserir mais efetivamente a família no processo: “Sem ela, a gente não cresce”.

Márcio, que viu sua história ser transformada pela combinação de dança, luta e música afro-brasileira, seguirá na parceria: “Eu voltei a estudar, consegui me formar e hoje tenho uma profissão. Minha retribuição é essa. Puxar os meninos para o lado bom da vida, que é o lado do esporte”.

Resumo da experiência
Objetivo – Permitir a inclusão por meio da expressão cultural, rítmica e corporal, usando a capoeira para desenvolver o movimento e falar de diversidade.
Quem participou
1 PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA
2 PROFESSORAS DO AEE
1 GRUPO DE CAPOEIRA CONVIDADO (3 MESTRES E ALUNOS)
97 ESTUDANTES DO 6º AO 9º ANO
1 FAMILIAR
Síntese da prática
Parque Ramiro Souto Ginásio Lupi Martins Instituto Popular de Arte Educação
Mural com cartazes mostra trabalhos dos estudantes sobre inclusão e pessoa com deficiência. Acima da imagem, mapa do Brasil com marcação que destaca cidade do Rio de Janeiro.
TOTÓ HUMANO E HANDEBOL SENTADO: CRIATIVIDADE E PARTICIPAÇÃO FAZEM A REGRA
A adaptação do jogo de mesa pode entreter dezenas de estudantes de uma vez e ninguém fica no banco de reservas.

A Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, já contava com elevador, piso tátil, bebedouros adaptados, banheiros para usuários de cadeira de rodas e identificação das salas em braile. E topou estender a inclusão às aulas de educação física a partir do curso “Portas abertas”. A ideia era que todos os alunos pudessem participar, sem segregação por gênero, habilidade ou deficiência.

A primeira estratégia do projeto foi explicar os recursos de acessibilidade da instituição aos estudantes. A segunda, conscientizar sobre as leis e direitos da pessoa com deficiência — para isso, as turmas do 8º e 9º ano fizeram pesquisas e montaram um mural a partir dos resultados, além de listar as barreiras do entorno escolar. E a terceira, exibir filmes relacionados ao tema, como “Colegas” bit.ly/colegas-filme, para promover o debate.

Elizabeth Klem, professora de educação física na Tasso da Silveira há 31 anos, considera essa parte teórica o diferencial da empreitada, pois buscar as informações que sustentam essa ideia e se relacionam com a realidade permite aos estudantes se apropriarem da inclusão. “A sociedade é cruel. Quando se trabalham esses valores com os jovens, ajudamos a transformar o pensamento para que eles não sejam excludentes”, explica. E funcionou. Os adolescentes dizem que aprenderam com ela a respeitar os outros e reconhecer nas diferenças uma coisa boa.

Já a parte prática ficou por conta da criação dos jogos, quarta estratégia. Durante um mês a educadora experimentou várias atividades com integrantes do 6º ao 9º ano e duas se destacaram: o totó humano, considerado pelos alunos “bonzão, maneiro e diferente”, e o handebol sentado, “cooperativo, divertido e com bastante movimento”.

O totó humano imita a brincadeira de mesa, também conhecida como pebolim, só que com os alunos ligados pelas mãos, em vez dos ferros. Ninguém fica de fora — dá para variar de acordo com o tamanho da quadra e incluir dezenas de participantes. O jogo permitiu envolver todos os jovens, independentemente das suas habilidades, que acabam se complementando. Foi uma oportunidade para envolver meninas e meninos em um jogo só e acabou sendo uma alternativa ao futebol, até então preferência clara dos estudantes.

No handebol sentado os jogadores passam a bola de mão em mão até chegar ao ataque — vale se deslocar com o bumbum no chão por pequenas distâncias. Antes de cruzar as traves, a bola deve quicar, porque os goleiros também jogam sentados.

Para completar, houve ainda a implementação de um fórum permanente sobre educação física inclusiva com o objetivo de quebrar resistências, já que muitos docentes se consideravam despreparados e sem tempo para discutir as questões no dia a dia. A primeira edição exibiu o filme “Cuerdas” bit.ly/cuerdas-filme, seguido de conversa sobre as barreiras e os facilitadores encontrados na escola.

Como desdobramentos do fórum, nasceu o dossiê de práticas desenvolvidas para avaliação contínua, permitindo que outros educadores possam dar sequência à experiência — totó humano e handebol sentado entrarão para o currículo oficial da instituição.

Elizabeth já considerava o desenvolvimento individual dos estudantes durante suas aulas, valorizando o potencial de cada um, mas o “Portas abertas” mudou seu olhar, trazendo sensibilidade no trabalho com os estudantes, aliando à sua forma exigente um novo entendimento de capacidade. Em 2017, o desafio continua: “Professor que fica na zona de conforto tende a esmorecer e se sentir infeliz. Eu gosto que mexam com minhas bases”.

Resumo da experiência
Objetivo – Garantir a participação de todos os estudantes simultaneamente, sem segregação por gênero, habilidade ou deficiência.
Quem participou
1 PROFESSORA DE EDUCAÇÃO FÍSICA
1 PROFESSORA DO AEE
1 COORDENADORA PEDAGÓGICA
2 GESTORAS
614 ESTUDANTES DO 6º AO 9º ANO
Professor que fica na zona de conforto tende a esmorecer e se sentir infeliz. Eu gosto que mexam com minhas bases.
ELIZABETH KLEM, CURSISTA DO RIO DE JANEIRO (RJ)
Síntese da prática
Parque Ramiro Souto Ginásio Lupi Martins Instituto Popular de Arte Educação
Crianças posam sorridentes segurando bambolês coloridos que formam arcos olímpicos. Acima da imagem, mapa do Brasil com marcação que destaca cidade de Salvador.
CIRCUITO DE ATLETISMO: DESENVOLVIMENTO CORPORAL E SOCIAL
Correr em zigue-zague, desviar de garrafas penduradas, saltar obstáculos, rolar no tatame e arremessar argolas exercita o corpo e favorece a interação.

A professora de educação física Ana Carla Dávila já tinha tentado participar do “Portas abertas” duas vezes. Na terceira, quando sua inscrição foi confirmada, não podia deixar de aproveitar o suporte para melhorar a integração do 4º ano B da Escola Municipal Nossa Senhora dos Anjos, localizada em Salvador. Havia uma certa resistência em incluir Raquel Santana, estudante com baixa visão, nas atividades coletivas.

Junto com Crispina de Oliveira, Rita de Cássia do Carmo e Jerusa da Silva, colegas de curso, a educadora desenhou o projeto cujo objetivo principal era expandir a troca de experiência entre os alunos, desenvolvendo o respeito e o reconhecimento do outro. A primeira estratégia consistiu em conversar com o Atendimento educacional especializado, representado pelo professor Daniel de Oliveira, para mapear as necessidades e potencialidades de Raquel.

Depois, ocorreu uma visita ao Instituto de Cegos da Bahia institutodecegosdabahia.org.br, que atende a estudante no contraturno escolar, marcando a segunda estratégia da empreitada e formando uma importante rede. Os profissionais da instituição deram sugestões de como sensibilizar a turma. “Inclusão é esse movimento de parceria, de conexão”, reforça Daniel.

A quarta estratégia ficou por conta do trabalho sobre os valores olímpicos, que nortearam a empreitada em ano de paralimpíada. Respeito, busca pela excelência, equilíbrio entre corpo e mente, vontade, superação e cooperação deveriam estar presentes, portanto, em todas as atividades realizadas ao longo de 2016, do judô ao golbol.

Para planejar o circuito de atletismo, Ana Carla pensou em abranger o maior número de movimentos e percursos no mesmo processo e incentivar as crianças a executá-los com precisão, em vez de rapidez. No começo, cada estação do circuito foi feita individualmente: corrida em ziguezague, desvio de garrafas penduradas, salto com barreira, cambalhota e arremesso de bambolê. Quando juntaram tudo, os alunos usaram vendas de TNT para vivenciar a baixa visão de Raquel e estimular o trabalho com os demais sentidos.

A empatia finalmente aflorou. “Foi um aprendizado para a gente parar de fazer bullying com a Raquel”, comenta Eliana Santos, aluna do 4º ano B. “Cada um tem que respeitar a diferença do outro”, completa sua colega de turma Marília Gabriela. E Raquel retribuiu passando a ajudar os colegas que sentiam dificuldade em realizar o percurso com a visão “embaçada”

Segundo os professores, após as atividades as crianças passaram a ter mais cuidado uns com os outros, e Raquel está mais aberta ao grupo. A própria estudante identificou uma mudança na autoestima e no humor após o projeto, afinal, inclusão também implica escuta sensível e acolhida. Para 2017, já incluíram na programação uma visita do Instituto de Cegos à escola. “A gente vai, aos poucos, transformando a mente dos educadores, mostrando que somos capazes, sim, de dar conta de toda e qualquer criança que chega a nossas mãos”, conclui Crispina.

Resumo da experiência
Objetivo – Garantir a participação de todos os estudantes simultaneamente, sem segregação por gênero, habilidade ou deficiência.
Quem participou
1 PROFESSORA DE EDUCAÇÃO FÍSICA
1 PROFESSOR DO AEE
2 COORDENADORAS PEDAGÓGICAS
35 ESTUDANTES DO 4º ANO
1 FAMILIAR
A gente vai, aos poucos, transformando a mente dos educadores, mostrando que somos capazes, sim, de dar conta de toda e qualquer criança que chega a nossas mãos.
CRISPINA DE OLIVEIRA, CURSISTA DE SALVADOR (BA)
Síntese da prática
Escola Municipal Nossa Senhora dos Anjos

O circuito foi trabalhado por etapas.

A ideia era concluir o circuito com precisão e não rapidez, lembrando-se dos valores olímpicos abordados em sala.

Colegas ajudam estudante com deficiência física a realizar movimento de ginástica rítmica sobre seu andador. Acima da imagem, há um pequeno mapa do Brasil com uma marcação que destaca a cidade de São Luís.
GINÁSTICA RÍTMICA: ESPORTE COREOGRAFADO
Saltos e movimentos acrobáticos com arco e fita permitem aos estudantes perceberem seu corpo como meio e modo de integração no mundo.

Antes de ser professora de educação física, Jocilene Nascimento participou da Seleção Maranhense de Ginástica e, ao longo dos quase 12 anos, venceu cinco campeonatos de ginástica rítmica. Filha de empregada doméstica e feirante, pôde treinar graças à ajuda de um projeto social, pois trata-se de um esporte caro.

Foi essa possibilidade de mudança de vida que a fez querer estender a prática às crianças da Unidade de Educação Básica (UEB) Professor Rubem Almeida, localizada no Coroadinho, um dos bairros mais violentos de São Luís. Com o curso “Portas abertas”, veio a preocupação de incluir não só os estudantes que têm alguma deficiência mas também os meninos, que costumam ficar de fora da modalidade. Para isso, a Jocilene pegou emprestados elementos da ginástica artística, praticada por ambos os sexos.

Desenvolvido em parceria com os professores de educação física Kenia Conceição, Henrique Pereira e Pablo Phelipe Rosa, o trabalho adotou os princípios pedagógicos do esporte educacional, respeitando a construção coletiva, a participação de todos e a diversidade, além de incentivar a autonomia, a formação humana e construção da cidadania.

A primeira etapa foi fazer uma reunião com a direção para apresentar a proposta. Depois houve uma roda de conversa com os alunos sobre o projeto de inclusão. Começaram, então, as aulas teóricas de ginástica rítmica voltando aos tempos da Grécia Antiga. E, por fim, a prática em si.

Nas primeiras aulas práticas, os estudantes aprenderam os movimentos básicos da ginástica e pensaram juntos adaptações para as variadas limitações físicas — tarefa desafiadora, segundo a educadora, e ao mesmo tempo prazerosa. O estudante Igor Matos, por exemplo, criou uma parada de mão com as pernas flexionadas e apoiadas nos cotovelos, que quase ninguém conseguia replicar. Os treinos passaram, então, a começar com alongamento e aquecimento, seguidos por exercícios de flexibilidade, equilíbrio, lateralidade, saltos e saltitos.

Ao final do processo, a turma já estava manipulando arco e fita, chamados de “aparelhos”. Os próprios alunos confeccionaram suas fitas em uma aula extra, e os arcos vieram da feira, com valor mais acessível. Para a montagem e ensaio da coreografia, todo mundo se encontrava na escola aos sábados. E, no dia da apresentação, os familiares se surpreenderam.

A ginástica rítmica diminuiu a timidez, aumentou a proatividade e melhorou a autoestima da garotada. Muitos confessaram a mudança de olhar em relação aos colegas com deficiência e outros se animaram com relação ao esporte. “Educação física é uma das minhas matérias favoritas. Sempre quis ser essas mulheres que dão saltos. Nas olimpíadas eu ficava paralisada na televisão, não perdia um”, falou Gabriela Gomes, do 5º ano.

Em 2017, Jocilene pretende convidar a Seleção Maranhense de Ginástica para dar uma oficina aos estudantes usando os materiais oficiais e levar as meninas e meninos para conhecerem a sede da equipe. Quando conta sua história aos estudantes, faz questão de transmitir a lição: ”A única coisa que pode parar você não é a deficiência nem o fato de ser pobre ou morar no Coroadinho, na periferia, em uma zona de risco, é você mesmo”.

Resumo da experiência
Objetivo – Possibilitar a percepção do corpo como meio e modo de integração no mundo, desenvolvendo habilidades esportivas, sociais e culturais.
Quem participou
4 PROFESSORES DE EDUCAÇÃO FÍSICA
1 COORDENADOR PEDAGÓGICO
1 GESTOR
2 PROFISSIONAIS NÃO DOCENTES
45 ESTUDANTES DO 6º E 8º ANOS DO ENSINO FUNDAMENTAL
3 FAMILIARES
Muitos [alunos] confessaram a mudança de olhar em relação aos colegas com deficiência e outros se animaram com relação ao esporte.
Síntese da prática

UEB Professor Rubem Almeida

Adolescentes e adultos trocam passes em dupla em quadra de vôlei improvisada em uma rua. Acima da imagem, mapa do Brasil com marcação que destaca cidade de São Paulo.
VÔLEI DE IDOSOS: MODALIDADE QUE CONTEMPLA A DIVERSIDADE
Com rede adaptada e marcações no chão, o jogo ajuda estudantes de todas as idades a interagir, exercitar o corpo e melhorar a gestualidade.

O Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos Aluna Jessica Nunes Herculano, conhecido como Cieja Butantã, não tem quadra ou pátio onde possam ser realizadas atividades físicas. Na jornada diária dos estudantes, também faltava um momento específico para a educação física, que não é obrigatória nos currículos da EJA. Somado a esse cenário, alguns estudantes ainda apresentavam muita resistência à ideia de praticar atividades corporais.

Mas nada disso impediu as professoras Silvana Damásio, do Atendimento educacional especializado, e Jaqueline Cristina Martins, de educação física, de arriscarem o vôlei de idosos com algumas turmas, desafio nascido no curso “Portas abertas”. O objetivo era estimular adolescentes, adultos e idosos a exercitarem o corpo, melhorando a gestualidade, além de proporcionar momentos de diversão em grupo. A rua em frente à instituição foi o lugar escolhido para dar conta da missão.

A primeira estratégia do projeto consistiu em realizar uma reunião com todos os educadores e a gestão, para decidir o formato das aulas e em que período elas ocorreriam. Aulas cíclicas como ciências humanas, matemática e ciências da natureza ou linguagens e códigos deram espaço, uma vez por semana, às atividades físicas. A grade horária também sofreu alterações para evitar que os atendimentos do AEE coincidissem com as aulas de educação física.

Escolher a atividade com os estudantes foi a segunda estratégia. Eles fizeram uma lista do que gostavam e, a partir disso, caminhada, alongamento, dança e jogos esportivos entraram em teste. A animação com os jogos logo se destacou, e Jaqueline sugeriu o vôlei de idosos, prática mais adequada ao espaço que tinham na rua e à participação dos alunos da terceira idade e alguns com deficiência, que tinham medo da bola. Depois a turma assistiu a vídeos para entender a dinâmica, e a professora agendou uma partida oficial no Sesc Pinheiros, que serviria de estímulo para cumprirem as regras ao longo do percurso.

O jogo em si passou por algumas flexibilizações: a rede ficava mais baixa, a bola era de espuma para não machucar (posteriormente substituída pela tradicional) e o chão ganhou marcações indicando a área em que os participantes poderiam se mover, além de setas para facilitar o rodízio a cada ponto, recurso que permitia experimentar diferentes posições. Em vez de saque, toque e manchete, a bola deveria ser segurada com as duas mãos e jogada para um colega de equipe ou lançada por cima da rede.

Silvana reforçava as instruções para os estudantes mais dispersos, que tinham dificuldade em prestar atenção com o movimento da rua. Nas aulas, os estudantes com deficiência escolhiam as equipes de acordo com seus próprios critérios — Felipe de Oliveira preferia as meninas; Elaine Moura, as pessoas mais altas; e Larissa Ferreira, as amigas.

Antes da competição, rolava um aquecimento em círculo e exercícios em dupla para aumentar a experiência com a bola. E, ao final, um alongamento com sequência de movimentos, que se repetia semanalmente. Fazer todo mundo participar, em uma turma com estudantes de 15 a 80 anos, pode ser um grande desafio. O segredo, segundo Jaqueline, é “garantir que todo mundo, em algum momento, tenha seu interesse contemplado”.

Pelo jeito, deu certo. Na quadra improvisada, todos encontram espaço para mostrar seus desejos e expressar sentimentos. Os estudantes com deficiência, quando a aula terminava, perguntavam se a atividade continuaria depois. Já os estudantes sem deficiência passaram a entender mais os colegas e sugeriram que estes pudessem sacar mais perto da rede, melhorando a partida.

Tanto os educadores que cederam parte de suas aulas quanto os que ajudaram diretamente nas partidas avaliaram que houve um ganho significativo para todos os estudantes. O projeto melhorou também a relação com a comunidade — a vizinha de muro da escola agora pergunta se precisa tirar o carro para liberar espaço, o rapaz do pastel auxilia na montagem da quadra e até algumas pessoas que estão passando na rua na hora da aula param um instante para fazer alongamento.

Está nos planos das professoras repetir a experiência com outras turmas no ano que vem, talvez em um espaço mais adequado, como um parque, atendendo a pedidos. “Ver todo mundo se ajudando é incrível. A gente percebe o quanto o aluno com deficiência faz diferença na vida da pessoa sem deficiência”, resume Silvana, provocando quem pensa o contrário a se permitir ter essa experiência.

Resumo da experiência
Objetivo – Exercitar o corpo, melhorar a gestualidade e proporcionar momentos de lazer e diversão em grupo.
Quem participou
1 PROFESSORA DE EDUCAÇÃO FÍSICA
1 PROFESSORA DE AEE
2 AUXILIARES DE APOIO
64 ESTUDANTES DO MÓDULO 3
Ver todo mundo se ajudando é incrível. A gente percebe o quanto o aluno com deficiência faz diferença na vida da pessoa sem deficiência.
SILVANA DAMÁSIO, CURSISTA DE SÃO PAULO (SP)
Síntese da prática

Cieja Aluna Jessica Nunes Herculano

Notas de rodapé
1 Nesse relatório, será utilizado o termo genérico "estudantes com deficiência" para referir-se aos estudantes público-alvo da educação especial.
2 Dos 509 participantes, 347 desenvolveram projetos locais e foram certificados em conformidade com a metodologia do curso.
Agradecimentos

Nosso agradecimento às equipes das secretarias municipais das 16 cidades participantes e todas as 119 instituições onde foram desenvolvidos os projetos de 2016. Além dessas, aos seguintes parceiros:

Consulado Britânico em São Paulo

Fundação FC Barcelona

Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF)

Ministério da Educação

Ministério do Esporte

Museu do Futebol

Latam Airlines

Todos pela Educação

União Brasileiro-Israelita do Bem-Estar Social (Unibes)

Lembramos que os impactos apresentados por este relatório são frutos do esforço e do comprometimento das secretarias que colaboraram com o projeto, dos facilitadores e interlocutores do curso, dos especialistas que se dedicaram à realização das aulas e dos cursistas responsáveis por desenvolver os projetos locais em cada cidade participante.

Expediente
Realização
Instituto Rodrigo Mendes
Apoio
Fundação FC Barcelona
Parceria
Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF)
UNICEF
Representante do UNICEF no Brasil
Gary Stahl
Representante adjunta do UNICEF no Brasil
Esperanza Vives
Especialista do programa Esporte para o desenvolvimento
Rodrigo Fonseca
Consultor do programa Esporte para o desenvolvimento
Augusto Souza
Chefe da área de educação
Ítalo Dutra
Oficial de educação
Júlia Ribeiro
Assistente de programas
Zélia Teles
Oficial de comunicação
Immaculada Prieto
INSTITUTO RODRIGO MENDES
Superintendência
Rodrigo Hübner Mendes
Coordenação de desenvolvimento institucional
Maria de Fátima Almeida e Albuquerque
Coordenação administrativa e financeira
Jóice de Avila Gitahy
Coordenação de comunicação
Rúbia Guimarães Piancastelli
Coordenação do programa de formação
Luiz Henrique de Paula Conceição
Coordenação do Diversa
Aline Cristina Pereira dos Santos
FICHA TÉCNICA
Redação e edição
Beatriz Levischi
Alexandre Moreira
Lailla Micas
Luiz Henrique de Paula Conceição
Rodrigo Hübner Mendes
Rúbia Guimarães Piancastelli
Revisão
Raciolina Moreira
Projeto gráfico e diagramação
Flavia Ocaranza
Gisele Fujiura
Gustavo Inafuku
Naná de Freitas
Fotos
Pat Albuquerque
Leonne Fortes
Participação de todos na escola comum, com altas expectativas de aprendizagem. Essa é a diretriz que pauta o Portas abertas.
RODRIGO HÜBNER MENDES, SUPERINTENDENTE DO INSTITUTO RODRIGO MENDES